Aposto que você, assim como nós, talvez tenha notado que os últimos lançamentos da perfumaria, em sua maioria, estão cada vez mais adocicados. Há quem comemore, já outras estão achando too much, inclusive nossa comunidade. 80% têm preferência nos cítricos, amadeirados, aromáticos, cypres e fougères, contra 20% que ainda sim prefere os tão amados perfumes mais doces.

O comportamento não é novo, mas reflete o papel da perfumaria como expressão cultural ativa. “O perfume deixou de ser só uma escolha olfativa e virou assinatura de identidade: traduz potência, projeção e autoexpressão. O ultradoce não é mais uma moda passageira. Ele se consolidou como um pilar estrutural do mercado global e, mais do que isso, como uma estética de comportamento”, define Renata Abelin, diretora de marketing e inovação LATAM da Givaudan, que cita o perfume Angel, de Thierry Mugler, como primeiro grande marco histórico do estilo e o Baccarat Rouge 540, do Francis Kurkdjian, que ajudou a reposicionar as notas doces dentro do luxo contemporâneo.

Território mais amplo
O gourmand deixou de ser apenas doce e açucarado para se tornar um território muito mais amplo, sofisticado e até inesperado. Surge uma contracorrente, o gourmand refinado, mais texturizado e menos óbvio. Entram matérias-primas inspiradas em um imaginário mais global e contemporâneo, especialmente influências do universo asiático, como leites de arroz, notas cremosas mais translúcidas e espumas delicadas. “Em vez do açúcar evidente, temos uma sensação de sofisticação, suavidade e pele.”

Outro complemento dessa evolução é o gourmand mais adulto, escuro e elegante, que traz profundidade e complexidade. Notas alcoólicas como licor, rum e nuances amadeiradas densas entram em cena para quebrar a doçura linear e criar perfumes mais sofisticados. “O doce não tem mais uma única linguagem. Ele virou um espectro de experiências”, relata a profissional.
Apego emocional
Em tempos tão incertos, é natural a busca por fragrâncias agradáveis, que nos transportem a algum lugar, que distraiam, que tragam uma espécie de refúgio emocional. “O cérebro interpreta essas notas como uma micro pausa de prazer. O doce, nesse contexto, deixa de ser apenas uma família olfativa e passa a ser uma linguagem emocional de segurança, nostalgia e escapismo positivo”, comenta Renata, que cita que do ponto de vista biológico e simbólico, o açúcar sempre foi associado a recompensa, segurança e prazer imediato.

Novos comportamentos
Outro fator impossível de ignorar é o fenômeno das canetas emagrecedoras. Para Renata, a era dos perfumes com notas de marshmallow, pistache e baunilha pode ser um reflexo direto das dietas de restrição severa ao açúcar. Diante da privação, o olfato assume o papel do paladar, promovendo uma verdadeira reorganização do prazer. “Se existe uma redução do açúcar na dieta, há uma amplificação do açúcar na imaginação. A perfumaria oferece uma forma de prazer simbólico, sem ingestão, sem culpa e sem consequência fisiológica direta.”
Além do doce
Para quem ama as fragrâncias gourmand, a notícia é excelente. Renata Abelin não acredita no fim dos perfumes doces, mas sim no amadurecimento da categoria. “Existe uma abertura crescente para caminhos mais frescos, verdes e clean, mas não como uma volta nostálgica ao passado. O que vemos hoje são construções contemporâneas, como as fragrâncias second skin, perfumes mais íntimos, que funcionam quase como uma extensão da pele, além de gourmands mais leves, aerados e equilibrados por facetas frescas que trazem respiro e modernidade”, explica.

Ela destaca, ainda, que o mercado atual rompeu com a visão puramente eurocêntrica, apontando a Ásia como o novo e grande hub de inovação olfativa.
