Moda

Como o babydoll se tornou resistência no corpo das cantoras?

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Olivia Rodrigo virou o centro de uma polêmica recente. Na nova era do álbum “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love”, a artista tem apostado com frequência em looks com babydoll e bloomers, short curto e com aparência de lingerie vintage. Desde então, ela tem sido alvo de críticas. O motivo? A cantora vem sendo acusada de usar uma estética infantilizada e sexualizada. A discussão, contudo, foi levada para além do look.

Olivia Rodrigo – Foto

Mood punk

A escolha do babydoll foi proposital e conversa diretamente com as referências musicais de Olivia Rodrigo. Em entrevista ao podcast do The New York Times, a cantora chegou a citar nomes como Kathleen Hanna e Courtney Love como inspirações. “Me sinto parecida com todas essas pessoas que são minhas heroínas”, comentou.

Tanto os vestidos babydoll quanto os shorts bloomer estão em alta há alguns anos, mas a relação dessas peças com a música e a cultura pop vem de antes. Nos anos 1990, elas ganharam força especialmente em cenas ligadas ao punk, ao grunge e ao movimento riot grrrl. O uso dessas peças, naquela época, tinha um tom desafiador e irônico: era uma forma de comentar a exploração de mulheres e meninas a partir da própria imagem.

A ideia era subverter uma estética retrô e quase infantilizada, muitas vezes fetichizada pelo olhar masculino. Quando usada por mulheres com postura feroz e guitarras no peito, essa lingerie deixava de parecer frágil e passava a carregar atitude e crítica.

Kathleen Hanna – Foto: Getty Images

Delicado, mas com peso 

As cantoras de punk dos anos 1990 costumavam usar uma combinação que Olivia Rodrigo acabou incorporando à própria imagem: babydoll e coturno. Em Barcelona, por exemplo, ela combinou o vestido floral com um par de botas de cano alto até o joelho.

Vale lembrar que essa peça foi criada em 1942 pela designer de lingerie Sylvia Pedlar, como resposta à escassez de tecidos durante a Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, ela odiava esse nome.

Não é de agora que o público sabe que o estilo de Olivia Rodrigo flerta com o punk. A grande questão, talvez, esteja no momento em que a artista escolhe reforçar essa estética.

A escolha de moda de Rodrigo acontece em um contexto culturalmente tenso. Depois do movimento Me Too e da exposição dos arquivos de Epstein, discussões sobre exploração, abuso e sexualização de mulheres jovens ganharam ainda mais força, e passaram a atravessar também a forma como o público interpreta imagens, performances e referências da cultura pop.

Da Disney à fase adulta 

Além disso, existe outra camada nessa discussão: Olivia Rodrigo é uma mulher na música que cresceu diante das câmeras, começando ainda muito jovem na indústria.

Para muitos fãs, ela parece cristalizada na idade em que ficou famosa, aos 13 anos, na Disney. É como se parte do público esperasse que ela nunca crescesse, mesmo que seus fãs também estejam envelhecendo ao lado dela. Nesse sentido, qualquer escolha estética passa a ser questionada.

Isso não acontece apenas com ela. Basta lembrar da trajetória de Miley Cyrus, por exemplo, que também precisou lidar com o estranhamento do público ao deixar para trás a imagem construída na Disney. Ou até de Sabrina Carpenter, que recentemente recebeu uma série de críticas pela capa de seu álbum, “Man’s Best Friend”. 

Além do babydoll

Há quem diga que uma solução seria Olivia Rodrigo deixar suas referências mais claras, algo que ela já vem tentando fazer em entrevistas e declarações sobre o tema.

Mas talvez a questão seja maior do que explicar um vestido. Desde que surgiu com “Drivers License”, Olivia constrói uma obra atravessada por temas como juventude, nostalgia e amadurecimento. O babydoll pode ser mais uma peça dentro desse universo visual, ou apenas uma escolha estética que ela quis usar naquele momento.

No fim, a polêmica diz menos sobre uma roupa específica e mais sobre a forma como ainda cobramos justificativas de mulheres quando elas decidem crescer, experimentar e controlar a própria imagem.

Além disso, é impossível apagar a história de uma peça que, apesar da aparência delicada, carrega uma carga muito mais punk, provocativa e política do que parece à primeira vista.

Olivia Rodrigo em “Dropdead” – Foto: instagram @oliviarodrigo

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